A família peemedebista se sucede nas instâncias do poder com direito a conceder a aliados cargos e prebendas.
Ei-lo:
o Partido do Movimento Democrático Brasileiro à frente das duas casas
congressuais: o Senado (Renan Calheiros) e a Câmara dos Deputados
(Henrique Eduardo Alves). Nem na Roma antiga, republicana, tal fenômeno
parecia possível. Em nome da divisão de poderes, as famílias nobres
cultuavam a diversidade como antídoto ao absolutismo. Aqui não; a cobra
fuma e não expira.
O PMDB terá, a partir de 2015, uma bancada de 19 senadores, 66 deputados
federais, e governará sete estados. De fato, é um partido repartido em
tendências inclusive antagônicas. Nele há de tudo, desde o testemunho
ético de um Pedro Simon às recorrentes denúncias de corrupção que
historicamente pesam sobre alguns de seus líderes. Ele pratica, mais que
a democracia, a demoarquia, originária do verbo gregoarchein, que significa ser o primeiro, estar à frente, no sentido de comandar processos.
Ora, pra que plebiscitos se, há décadas, vivemos no regime
parlamentarista? O PMDB exerce a função de primeiro-ministro, o
Executivo preside. Ou quem sabe estamos, sem nos dar conta, em plena
monarquia! A família peemedebista se sucede nas instâncias do poder com
direito a conceder a correligionários e aliados cargos e prebendas.
Não importa que os discursos sejam outros. Na Inglaterra, enquanto o
parlamento grita, a rainha reina. Aqui, idem. Haja o que houver, estamos
em mãos do mais despudorado fisiologismo, cujos discursos sobrevoam
eloquentemente as práticas do clientelismo e do compadrio. Se o mundo
gira e a Lusitana roda, os governos se sucedem e o PMDB impera. Hay gobierno, soy a favor, grita a ala dos peemedebistas acostumada a mamar nas tetas da máquina pública...
Coitado do doutor Ulysses Guimarães e toda a sua luta por uma democracia
participativa! Conta Homero, na "Odisseia", que Ulisses encontrou na
Ilha das Sereias curiosas criaturas com cabeças e vozes de mulheres, mas
com corpos de pássaros que, com doces canções, atraíam marinheiros ao
encontro das rochas. Quando o barco se aproximou, uma calmaria se abateu
sobre o mar, e a tripulação utilizou os remos. De acordo com as
instruções de Circe, Ulisses tampou os ouvidos da tripulação com cera,
enquanto ele próprio foi amarrado ao mastro, de modo que pudesse ouvir a
canção e passar a salvo pelo perigo. "Aproxime-se Ulisses!", cantavam
as sereias. Ulisses resistiu, mas quantos, a bordo do transgoverno
chamado PMDB, são capazes de tapar os ouvidos ao canto das sereias?
Narra ainda Homero que Penélope, fiel esposa, rechaçou todos os
pretendentes, até que surgisse um homem capaz de atirar com o arco de
Ulisses. Nenhum deles conseguiu. Até o dia em que um mendigo tomou em
mãos o arco, retesou-o e, na mesma hora, Penélope reconheceu nele seu
amado Ulisses.
A democracia brasileira espera, como Penélope, o dia em que poderá
reconhecer sua plenitude na inclusão social daqueles que, hoje, se nos
apresentam como o maltrapilho Ulisses.
Frei Betto
é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por
sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos
populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e
2004. É autor de "Batismo de Sangue", e "A Mosca Azul", entre outros.